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Quadrilha Intermitente

"João amava Teresa que amava Raimundo 
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili 
que não amava ninguém. 
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, 
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, 
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes 
que não tinha entrado na história."

Ao escrever isso, Carlos Drummond de Andrade já relatava uma realidade latente na vida de todo solteiro à procura de um relacionamento sério.

Você conseguiu namorar e não foi porque seus critérios diminuíram ao passar dos anos, nem se iluda. Algumas expectativas são como aqueles traços do The Sims que você escolhe antes de criar a personalidade do seu personagem (para os que jogam honestamente claro, com cheats se faz tudo, mas não dá pra usar cheat na vida)

Não foi com o Pedro ou o João. Ou o Alberto, que parecia ter tudo pra funcionar. Nem com o Manoel, que por ter algum distúrbio e tomar remédio te parecia ser uma solução mais saudável por "te inspirar a ser melhor". O Marcos, era tudo o que você sempre precisou em alguém, cheio de ideais e lutava por todas aquelas causas que você achava incríveis, mas também não foi com ele.

Aconteceu exatamente com o Mateus, o cara que nem fazia parte do seu cotidiano ou dos seus amigos, que te adicionou em uma rede social qualquer do nada e você não sabia absolutamente nada a respeito dele, nem se interessou inicialmente em descobrir.

Lili que estava certa.

Adverso



As diferenças já existiam ali. Não era nenhuma novidade. Tava mais pra tema bem ultrapassado. Overrated.

Na hora em que realizei, não quis mais te ouvir nem ver. Ligar no fim de cada dia. Ouvir por horas cada detalhe do quão chato foi o trabalho, a demora no trânsito ou a quebra de expectativas sobre o seu futuro – que eu já andava sem me ver positivamente nele há meses – sabendo que eu precisava terminar meus discursos diários motivacionais explicando sobre o quão maior do que tudo isso você era e que você teria sempre a mim, e forçar uma segurança sobre si que você nunca precisou.

De ter que ver você me perguntar da estranheza ou frieza com a qual eu lidava com o assunto do dia anterior – repetido – e falar que eu não ligava pras suas coisas. De me sentar todos os dias pra ouvir as mesmas músicas que você mandava ou ver as mesmas fotos dos seus prospectos amorosos, seguidos por um “nunca vão me notar”.

Sabe o que é? É que eu sou shiny happy people demais pra lidar com o constante negativismo frente à vida. Em um acidente, eu vou observar quais partes não me machuquei, em um assalto, no que não me foi roubado, em uma doença, no que ainda pode ser feito para amenizar, em um sofrimento, na libertação que ele vai trazer.

Pra você sempre foi fácil lidar com as minhas dores, e por isso você é aquele quadro no meu quarto que eu não sei bem o motivo de ter colocado lá, e intriga tanto que só posso olhar por horas a fio. Você tem a habilidade de compreender os infernos pessoais de qualquer um justamente por sempre viver no seu.

Sempre tentei entender o motivo de gostar de você, e sempre foi da forma errada. Eu intensificava as suas tempestades e rebeldias. Te encontrava pra discutir pelos cantos, nunca compreendi seu jeito de ser porque simplesmente não sentia (e ainda não sinto) as suas dores com a empatia nem com o apoio que você tanto desejava.

Mas gostar de você não é isso, nunca foi. É adverso. E só bem de fora que deu pra perceber. Também não é o que você espera. É algo no meio que ninguém irá conseguir entender nas inúmeras tentativas. Melhor não mexer enquanto não houver solução e só continuar andando.

O terrível monstro verde da insegurança

É inevitável. 

Lá nas profundezas de todo ser humano existe uma criatura que ao menor estímulo, surge para destruir apenas tudo: projetos, relacionamentos, decisões. "Por que verde?", se pergunta. 

A resposta é simples: Ele faz com que qualquer um vomite em cima de outra pessoa um monte de pensamentos sem noção. 


Mas ele não é só verde! Ele é desengonçado, obtuso, feio, disléxico e tão nojento que não merece ser tocado nem consegue tocar ninguém. 

O que ninguém sabe é que compreender a existência desse ser e se conscientizar de sua presença quebra a maldição lançada sobre ele e sua irmã, a Autoestima. Deste modo, ele pode aparecer tanto quando ela está para baixo, como quando ela está super pra cima.

Para os que conseguem cultivar os bons pensamentos ao decorrer da vida, o monstro verde da insegurança consegue viver tão bem em sociedade que acaba sendo visto positivamente pelos demais.

Sendo assim, ele pode ser superado. É preciso tempo, espera e o discernimento do valor que ele possui dentro de cada um, sejam nas situações e perguntas mais objetivas do cotidiano, como na descoberta de novos ambientes e novas características.


O melhor tipo de inspiração

Dopamina, Serotonina, Noradrenalina, NGF. Meu coração dispara. Perco a fome e a vontade de dormir. Vasopressina, ocitocina, estrogênio e testosterona. Tudo isso para constatar o que acontece quando nos aproximamos, e o que rapidamente ativou essas áreas tão especiais do meu cérebro.

Vou parar de ser técnico aqui sobre a gente. Porque não existiu nada de técnico nesse encontro. Nada disso consegue explicar o motivo pelo qual combinamos de cara, e porque tudo mudou de cor. A paciência com as situações mais chatas da vida hoje se enverga a ponto de atingir o completo contorcionismo. Pensar a dois se tornou a tarefa mais desafiante e interessante dos últimos dias. A busca por se tornar alguém melhor recebeu uma dose extra de incentivo, já é possível enxergar arte em lugares até então renegados, todo som é música.

Ando apaixonado por tudo referente à vida, por ter encontrado o melhor tipo de inspiração.




E agora, Maria?

Maria, que sempre foi uma pessoa costumeiramente tranquila, nos últimos meses não havia conseguido sossegar com nada. Quem nunca se sentiu ferido por alguém que gosta? E essa ferida, de tão profunda, não conseguia cicatrizar. Já havia procurado terapia, livros de autoajuda, mas se torturava noite e dia, perdendo a paz e principalmente, o sono. Ela sabia que isso poderia prejudicar severamente o coração, pois em suas pesquisas, descobriu que 80% dos problemas cardíacos eram desenvolvidos em pessoas rancorosas.

Mal imaginava ela, que Frederico, o suposto heartbreaker, procurando se libertar de uma situação danosa que ambos haviam construído, decretou de forma egoísta que não daria pra sustentar mais tudo aquilo ali que chamavam de "uma coisa". Ciente de que com o acúmulo de ressentimentos, poderiam desenvolver uma série de distúrbios e enfermidades físicas a longo prazo, resolveu entregar os pontos e parar de insistir em qualquer estímulo proveniente dali.

A raiz dos transtornos mentais, das neuroses, no entanto, permaneceu na mente de Maria. Ela não percebia que ao remoer isso, dava abertura para a raiva e para o posto de vítima, prendendo-se apenas em si mesma. De alguma forma, cultivava ainda o sentimento em um caráter bem desagradável, conquistando dessa forma uma certa ligação com o sujeito que a magoou. Permanecia depositando, assim como ambos fizeram por muito tempo, a frustração que não era capaz de suportar dentro de si mesma.

Mas Maria não percebeu que o mundo ao redor pulsava chamando-a para ser feliz. Que ela nunca mais havia brigado tão severamente com alguém ou desenvolvido acessos de raiva tão fortes como tinha com Frederico. Que ela não tinha mais os olhares dele sobre tudo o que ela fazia, que dirá os comentários? Que existia uma série de outras pessoas querendo despertar nela os melhores sentimentos do mundo. Ela simplesmente não conseguiu se perdoar.

Agora Maria caminha esperando por dias melhores, revivendo o que já passou, sentindo o sufoco e mal-estar intermináveis de uma situação que só continua em sua própria mente.

"Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo..." - Nietzche 






Reflexão do dia


"Bem, o relacionamento de amor é um relacionamento vulnerável, não? E exige contínuas confirmações, e se não houver confirmações, há dúvidas, e se alguém passa uns dias e não sabe nada dela, se desespera. Por outro lado, alguém pode passar um ano sem saber nada de um amigo, e isso não tem nenhuma importância. A amizade, bem, a amizade não exige confidências, mas o amor sim. E o amor é um estado... de receio, é bastante incômodo, não? Bastante alarmante. Por outro lado, a amizade é um estado sereno, podemos ver ou não ver, saber ou não saber o que o outro faz..."

(Jorge Luis Borges, Sobre a Amizade e outros diálogos)



Das vantagens de não ser invisível

"We make a living by what we get, but we make a life by what we give" - Winston Churchill

Claro e simples. Não existe nada no universo que consiga prover tamanha realização na vida de um ser humano do que fazer a diferença na de outro. De tanto viver de si mesmo, eventualmente o indivíduo há de transbordar em si e dificilmente se aguentar.

Quando aquela amiga de mesma idade passar grávida, antes de considerar que ela "perdeu a vida", que tal parar pra pensar se ela não está extremamente feliz em poder gerar uma vida que irá depender dela e poderá atuar de forma tão significativa, a conquistar um nível de realização que por muitos anos de carreira você nunca irá sentir? Ou de repente, considerar ajudá-la nessa nova etapa?



Todos temos status, notificações, fotos de conquistas diárias e de milhares de situações pautadas num heroismo tão forte que mostrar o tempo inteiro que estamos crescendo e melhores é a maior tentativa de extrair um pouco de realização para um cotidiano comumente mais ou menos.
Já se perguntou o porquê de existirem garis que não tem vontade de mudar de vida? ou garçons? ou qualquer um dos empregos que envolva o trato com pessoas, mas que sejam socialmente recriminados?
A resposta é simples: Além de ser uma forma de subsistência, todos os dias fazem a diferença na vida de outros.

Seja visível.